Atualizado 09/05/2019

AGROTÓXICOS: Não é só água

Levantamento aponta que 25% das cidades brasileiras são abastecidas por água contaminada. Efeito dominó potencializa discussão sobre o tema

Um coquetel que mistura diferentes agrotóxicos foi encontrado na água de uma em cada quatro cidades do Brasil entre 2014 e 2017. Nesse período, as empresas de abastecimento de 1.396 municípios detectaram todos os 27 pesticidas que são obrigados por lei testar. Desses, 16 são classificados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa como extremamente ou altamente tóxicos e 11 estão associados ao desenvolvimento de doenças crônicas como câncer, malformação fetal, disfunções hormonais e reprodutivas. Entre os locais com contaminação múltipla estão as capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus, Porto Alegre, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis, Palmas e Curitiba.

 

Os dados são do Ministério da Saúde e foram obtidos e tratados em investigação conjunta da Repórter Brasil, Agência Pública e a organização suíça Public Eye. As informações são parte do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), que reúne os resultados de testes feitos pelas empresas de abastecimento.

 

A pesquisa revela ainda que a contaminação da água está aumentando de maneira rápida e progressiva. Em 2014, 75% dos testes detectaram agrotóxicos. Subiu para 84% em 2015 e foi para 88% em 2016, chegando a 92% em 2017. A produção dos veículos de informação permite que a comunidade tenha acesso a mapas e dados. É possível também, checar a qualidade de água por município – o que contribuiu para que o assunto se replicasse de maneira rápida e simultânea.

 

E foi assim que o Vale do Iguaçu – e o rio Iguaçu – virou notícia. É que, conforme o material, foram encontrados em União da Vitória, 27 agrotóxicos – 11 deles, associados a doenças crônicas, como câncer, defeitos congênitos e distúrbios endócrinos. Em Porto União, os dados não aparecem, mas, uma vez que o mesmo rio abastece as duas cidades, o número de defensivos presentes na água provavelmente será idêntico.

 

A gerência regional da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) se defende e diz que todos os testes legais são feitos e que as amostras não apontam para todo esse alarde. “É uma interpretação errônea, feita dessa pesquisa, baseada nas informações (do Sisagua). Temos uma nota da Sanepar também que informa que a empresa segue os parâmetros legais para a distribuição de água”, disse à rádio CBN Vale do Iguaçu ontem, o gerente do escritório, Bolivar Menoncin. “Toda água distribuída pela empresa tem garantia de qualidade”.

 

Essa nota mencionada por ele, de fato, existe. O documento está na página da empresa e diz, por exemplo, que “a companhia segue rigorosamente a legislação brasileira que determina os parâmetros da potabilidade da água para abastecimento público.

 

A Sanepar informa que não foi detectada presença de agrotóxicos em nenhuma análise realizada pela empresa acima do Valor Máximo Permitido (VMP) pela Portaria de Consolidação 5, anexo XX, do Ministério da Saúde, conforme histórico disponibilizado a este Ministério.

 

Matérias veiculadas na mídia utilizaram informações do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano, de forma incompleta” (leia a nota na integra no quadro).

 

Para o engenheiro agrônomo, Jair Scaramella de Mello, da Emater Regional de União da Vitória, a discussão sobre o que se tem na água deve ir muito além. Ela passa pela política, pela necessidade de tecnologia e por mais investimento no campo. De maneira racional, Jair afirma que a alimentação orgânica não alimenta o mundo e que não há desenvolvimento ou progresso sem crime ambiental. “Existe o uso de agrotóxico? Sim. É possível produzir sem eles? Não, não é. As grandes lavouras precisam dessa colaboração dos químicos. O grande problema hoje é o mau uso do defensivo. Se bem usado, o dano é muito pequeno. Jogar no ar que tem um coquetel de veneno, pode até ser verdade. Mas o que importante é sentar, conversar, ver o que é possível fazer para reduzir isso”, defende.

 

Até lá, diante dessa informação potente, a comunidade pode se defender. Medidas simples, aplicadas dentro de casa e com bom senso, ajudam. No caso da água, por exemplo, a orientação é consumir o produto mineral.  Quem não tem condições de compra, pode ferver a água, por exemplo. Já no caso dos alimentos, a orientação é se certificar de onde vem o produto (isso envolve até uma conversa com os agricultores, se possível) e, ainda mais positivo, manter uma horta caseira, à base natural, sem o uso de qualquer defensivo. “Temos gente no interior, água nos morros. Agora, como incentivar a produção sem um incentivo? Tem que pensar, reunir os setores e decidir. A tendência é cada vez piorar. Éramos um bilhão, já somos oito e daqui 50 anos, como será? Vamos ter que juntar quem pensa com o coração e fazer as coisas acontecerem”.

 

NOTA DA SANEPAR

A Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) garante a qualidade da água que distribui à população do Paraná em 345 municípios e de Porto União (SC). A Companhia segue rigorosamente a legislação brasileira que determina os parâmetros da potabilidade da água para abastecimento público.

 

A Sanepar informa que não foi detectada presença de agrotóxicos em nenhuma análise realizada pela empresa acima do Valor Máximo Permitido (VMP) pela Portaria de Consolidação 5, anexo XX, do Ministério da Saúde, conforme histórico disponibilizado a este Ministério.

 

Matérias veiculadas na mídia utilizaram informações do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), de forma incompleta.

 

No momento de registrar os resultados de suas análises, não há no cadastro do Sisagua a opção de informar a não detecção do princípio ativo do composto. O Sistema de Informação aceita apenas o registro como “no limite” em vez de “ausente”. Desta forma, fica registrada a presença de agrotóxico na água, mesmo que não tenha sido detectada, distorcendo a informação.

 

Quatro laboratórios da Sanepar realizam semestralmente análises de agrotóxicos de todas as localidades atendidas pela empresa, conforme determina a legislação do Ministério da Saúde. São investigados 27 tipos de agrotóxicos e, em todos os testes, os resultados ficam abaixo dos limites permitidos, ou seja, não foi detectada a presença de agrotóxicos na água distribuída para a população.

 

A Sanepar, por meio da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), e a Associação das Empresas Estaduais de Saneamento (Aesbe) estão pedindo esclarecimentos ao Ministério da Saúde sobre os valores disponibilizados com relação à presença de agrotóxicos na água usada para consumo humano, para não ocorrer interpretação equivocada como ocorreu no material divulgado.

 

(Disponível na página da Sanepar, http://site.sanepar.com.br/)

 

Fonte: Portal VVale
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