Atualizado 11/04/2019

Casos de feminicídios dobram em Santa Catarina neste ano

Os casos de feminicídios em Santa Catarina praticamente dobraram nos primeiros meses de 2019, quando comparado ao mesmo período do ano passado. Desde 1º de janeiro, 15 mulheres acabaram mortas apenas pelo fato de serem do sexo feminino ou foram vítimas de violência doméstica — oito casos foram registrados nos primeiros meses de 2018. Os números são da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP).

 

O mais recente ato de violência contra a mulher aconteceu em Balneário Camboriú. A advogada Lucimara Stasiak, de 30 anos, foi morta a facadas. O companheiro dela é apontado como o principal suspeito. Ele manteve o corpo da mulher trancado no apartamento do casal por cinco dias, até se entregar e ser preso pela polícia na quarta-feira (3).

 

Assim como a morte de Lucimara, outros 13 casos registrados em SC também foram praticados por companheiros ou ex-companheiros das vítimas. Em apenas uma das ocorrências o suspeito era cunhado da mulher que morreu. Todos os suspeitos são homens.

 

Para o promotor Belmiro Hanisch Júnior, que atua na área de combate à violência contra a mulher, no Ministério Público de Jaraguá do Sul, a sensação de impunidade ainda é algo que motiva muitos desses crimes. Porém, ele acredita que, salvo os casos extremos de mortes, as demais ocorrências de violência contra as mulheres não tiveram, necessariamente, aumento longo dos anos. Para Hanisch, mais vítimas estão denunciando os agressores.

 

— Elas estão se sentindo mais à vontade e protegidas e acabam denunciando essa situação. Elas narram que já acontece há muito tempo e elas acabam não registrando. Eu vejo muito mais que o aumento é de registros do que de casos que ocorrem. Os casos sempre ocorreram, mas ficavam numa cifra negra que não era do nosso conhecimento — afirma.

 

 

Hanisch diz que há uma tendência de que os registros sejam feitos, principalmente, por mulheres com menor poder aquisitivo e com grau de educação mais baixo. Isso, porém, não tem relação com o fato de que homens dessas classes sociais sejam mais violentos. Ao contrário, o promotor acredita que as mulheres mais abastadas se sentem mais temerosas em expor esses casos publicamente.

 

— Talvez, por uma questão social, muita coisa nem venha à tona. Acaba constrangendo a mulher para que seja levado ao conhecimento de quem quer que seja — diz.

 

Além da questão cultural e patriarcal que sempre é citada nesses casos de violência, Hanisch diz que o consumo de álcool e drogas muitas vezes está diretamente ligado às ocorrências. Segundo ele, nas situações envolvendo casais, os ciúmes e os entorpecentes formam uma mistura perigosa para as vítimas.

 

Em todo o ano passado foram registados 42 casos consumados de feminicídio, com registro em 32 cidades, sendo oito mortes na Grande Florianópolis.

 

Feminicídio tem relação com uma sociedade ainda patriarcal

 

A percepção de aumento dos casos de feminicídio exige a análise de muitos fatores por conta da complexidade do tema. É o que destaca a doutoranda em Filosofia pela UFSC, Daniela Rosendo, professora no curso de Direito e membro do Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem Brasil).

 

Rosendo frisa que o principal deles está relacionado ao fato de a sociedade ainda ser patriarcal — em que os homens exercem poder de opressão sobre as mulheres. A violência contra a mulher é uma das formas dessa opressão se expressar, algo considerado como questão chave no entendimento do feminicídio. Diante disso, a professora destaca que o aumento do conservadorismo no Brasil também tem contribuído para o salto das estatísticas.

 

— Não dá pra dissociar do discurso de ódio e de intolerância. Santa Catarina é um Estado conservador e isso se reflete também na violência de gênero que, associada ao enfraquecimento e na falta de políticas públicas suficientes, acaba gerando aumento dos casos. A conta não fecha — enfatiza.

Fonte: nsctotal.com
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