Atualizado 28/05/2019

Portadores de HIV contam como enfrentam a crise na Venezuela

Os programas de assistência aos portadores de HIV na Venezuelasofreram um forte impacto da crise econômica e das sanções internacionais impostas ao país. Após uma gravíssima crise de desabastecimento de antirretrovirais em 2018, os medicamentos voltaram a ser distribuídos pelo governo em 2019, mas as pessoas que dependem deles ainda enfrentam a irregularidade no serviço.

 

Pacientes contaram ao G1 que é preciso recorrer ao mercado negro, à ajuda de amigos e a países vizinhos para dar continuidade ao tratamento. Eles também enfrentam a indisponibilidade de testes de carga viral e das células de defesa, que são fundamentais para que os médicos estabeleçam tratamento adequado.

 

O governo de Nicolás Maduro não divulga números oficiais atualizados, mas o Unaids, programa da ONU voltado para o combate dessa doença, afirma que, em 2017, 120 mil soropositivos viviam no país e mais da metade deles (65 mil) não estava conseguindo fazer os tratamentos como deveriam.

 

Os primeiros meses de 2018 foram o auge do desabastecimento de antirretrovirais. Esses medicamentos, quando tomados de maneira combinada, impedem a multiplicação do vírus.

 

A falta de um tratamento constante debilita a saúde dos soropositivos, que ficam mais suscetíveis às chamadas “doenças oportunistas” (que se aproveitam da fragilidade do sistema imunológico).

 

Com isso, a taxa de portadores de HIV que precisaram ser hospitalizados disparou e se calcula que entre 20 e 30 pessoas morram por dia por doenças relacionadas à falta de tratamento adequado.

 

“É cruel, mas é verdade: ter o diagnóstico de HIV na Venezuela é receber sua sentença de morte. Mas isso não acontece só com soropositivos, mas também com quem tem câncer e diabetes. Ou compramos no mercado negro ou não tomamos e morremos lentamente”, afirma o engenheiro civil Carlos*, morador de San Cristóbal, no estado de Táchira, no oeste do país.

 

Carlos conta que, quando recebeu o diagnóstico em 2011, não havia escassez de medicamento. “Recebia os antirretrovirais e suplementos vitamínicos e proteicos. A situação foi se agravando aos poucos. Em 2015, passei a receber só os antirretrovirais.”

 

Em 2015, com a baixa acentuada no preço do petróleo (base da economia do país), o Ministério da Saúde venezuelano reduziu a compra de medicamentos em geral, priorizando apenas a aquisição de antirretrovirais. Porém, deixou de adquirir kits para que se faça o diagnóstico de Aids e seu controle, assim como comprar preservativos, o que tem impacto na prevenção da doença).

 

O problema se agravou drasticamente nos anos seguintes. Entre o fim de 2017 e 2018, a distribuição do tratamento para HIV foi praticamente suspensa.

 

Nesse período, Carlos chegou a ficar 12 meses sem medicação, porque não conseguia pagar seu tratamento com o salário mínimo que ganha, de 18 mil bolívares (US$ 5).

 

“Fiquei muito preocupado, porque tinha medo de morrer na Venezuela sem poder tomar os medicamentos. Nessa época, a minha carga viral subiu e minhas células de defesa caíram. Cheguei a perder 10 kg.”
 

Ele fazia o que podia na tentativa de se manter saudável. “Passei a tomar um chá que tem muitas vitaminas e minerais. Também fazia exercícios e me esforçava para me alimentar bem apesar da escassez de alimentos. Com ajuda de amigos, passei a comprar o que precisava para me manter saudável”, lembra.

 

Carlos descobriu, então, que pessoas com HIV estavam conseguindo atravessar a fronteira e comprar os medicamentos em Cúcuta, na Colômbia. Há dez meses, com ajuda dos amigos, ele passou a adquirir Tenofovir, Efavirenz e Lamivudina (medicamentos que devem ser tomados combinadamente) por 150 pesos colombianos (cerca de US$ 50). “Sai mais barato do que comprar na Venezuela”, afirma.

 

Quando Maduro decidiu fechar a fronteira, a situação ficou ainda mais complicada. “Para entrar na Colômbia, é preciso pagar os militares para que nos deixem passar pelo rio e entrar ilegalmente no país. Só assim conseguimos comprar remédios e comida”.

 

Além da dificuldade para conseguir o seu coquetel, Carlos convive com a angústia de não conseguir pagar seus exames periódicos de controle da sua carga viral em uma clínica particular.

 

“Faz cinco meses que estou tomando o tratamento antirretroviral. Agora estou no meu peso ideal. Estou recuperando o tempo perdido, mas ainda não consegui fazer os testes para ver o nível da minha carga viral, porque eles custam muito caro nos laboratórios privados. Desde maio de 2017 que eu não faço. Estou economizando e pensando em fazer um empréstimo para isso.”

 

 

Certo alívio em 2019

 

Entre o fim de 2018 e início de 2019, uma combinação de várias ações colaborou para que os portadores de HIV venezuelanos tivessem um certo alívio. O governo concluiu uma compra de medicamentos através de um fundo mantido pela Organização Pan Americana da Saúde (Opas). A administração também contou com a cooperação técnica de Unaids, ONGs internacionais e a sociedade civil para retomar a distribuição dos medicamentos.

 

“No geral, cerca de 85% dos pacientes conseguiram neste ano receber sua medicação, entre eles, os recém-diagnosticados e aqueles que estavam com tratamento irregular por causa da crise no abastecimento”, afirmou ao G1 a representante do Unaids na Venezuela, Regina Lopez de Khalek.

 

Nos últimos meses, o país também passou a ter acesso a uma nova droga de baixo custo chamada TLD, que combina diferentes retrovirais e que pode ser utilizada por cerca de 60% dos pacientes.

 

 

Fonte: G1.COM
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